Escrito por Gabriel Cardoso [*]
Quando narrativas teológicas se fundem ao poder político militarizado, o resultado é a naturalização da barbárie por meio da violência. A situação entre Israel e Palestina revela um dos palcos mais tristes desse fenômeno.
Na edição de hoje, entrevistaremos o teólogo Charles Portela[**], que analisa como a ideia de “terra prometida” tem sido usada como pretexto para justificar deslocamentos forçados, ocupações territoriais e ataques a civis, violando sistematicamente os direitos humanos.
Portela propõe um caminho árido, porém urgente, de desarmar a teologia e realocar a dignidade humana para o centro de qualquer solução para a região, com a perspectiva crítica e sedimentada na tradição protestante dos direitos humanos.
1. Poderia fazer um breve apanhado histórico da situação que envolve Israel e Palestina?
A relação histórica entre Israel e Palestina é complexa pois existem diferentes narrativas disputadas dos dois lados.
A história basicamente tem a ver com Sionismo e imigração. O movimento sionista judaico no início do século XX, incentiva judeus a imigrarem para a Palestina, que na época fazia parte do Império Otomano, o problema é que a região já tinha população majoritariamente árabe. O grande desafio era prever um “lar nacional judaico”, mas também conciliar os direitos aos árabes locais daquela região. Então as tensões cresceram absurdamente, pois a Imigração judaica aumentou, especialmente nos anos 1930-40 devido ao antissemitismo e Holocausto depois da segunda guerra mundial. Os conflitos se intensificam resultando que ambos (judeus e palestinos) reivindicam a mesma terra.
A ONU em 1947 propõe dividir a Palestina em um Estado judeu e um Estado árabe, com Jerusalém internacional. Líderes judeus aceitam. Líderes árabes rejeitam, por considerarem a partilha injusta. Logo no início houve a chamada
Guerra de 1948 à 1949 pois Israel declarou independência em maio de 1948. Os países árabes vizinhos se envolveram no conflito. Israel venceu aquela “primeira guerra” se estabelecendo no local como um pais independente e ampliou o território além do plano estabelecido previamente pela ONU. O resultado foi catastrófico, eu diria, porque provocou que aproximadamente 700 mil refugiados palestinos fossem de certa forma expulsos ou forçados a saírem de suas terras.
Muitos outros conflitos e negociações aconteceram ao longo do tempo até nossos dias, sem trazer soluções duradouras entre os dois povos.
2. Até que ponto narrativas teológicas ligadas à ideia de “terra prometida” ainda influenciam decisões políticas contemporâneas?
Acredito que na verdade seja quase impossível desvincular o sentimento religioso das questões geopolíticas daquela área, isso não vem de agora mas desde as cruzadas, o intuito era enfraquecer a opressão islâmica sobre a região.
A Igreja deu às Cruzadas o caráter de “Guerra Santa” e com isso prometia perdão dos pecados e lugar no Paraíso a quem participasse.
Numa entrevista recente o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu declarou ao canal de notícias i24 TV que sente estar em uma “missão histórica e espiritual” e que é “muito” apegado à visão da Terra Prometida e do Grande Israel.
Sua declaração seguramente é justificativa de sua posição política e militar naquela região.
Até nossos dias, o turismo cristão à “terra prometida”, não é apenas um turismo, mas tem valor de experiência espiritual por ser a região onde Jesus nasceu, morreu e ressuscitou.
Então o sentimento religioso de “terra prometida” paira no ar cada vez mais forte e plural, com vertente cristã, judaica e muçulmana, aliás, vale lembrar que segundo a tradição islâmica, o Profeta Maomé viajou de Meca até Jerusalém numa noite, e dali ascendeu aos céus para se encontrar com Deus. Por isso o lugar é chamado sagrado.
Então no meu ponto de vista, as narrativas teológicas acabam exercendo influência incalculável para toda cultural sociopolítica da região.
3. Na sua avaliação, há uso instrumental da teologia por atores governamentais e religiosos para legitimar violência ou ocupação territorial? Se sim, como isso se manifesta concretamente?
Recentemente o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, utilizou retórica religiosa, pedindo orações pela vitória militar contra o Irã em nome de Jesus. Ele associou ações militares a um “propósito divino”.
Para mim a maior contradição é quando um líder religioso em nome de Deus legitima qualquer ato de violência. Não sou católico mas gostei do posicionamento do papa ao afirmar que “Deus rejeita orações de líderes que promovem guerras.”
Infelizmente muitos protagonistas governamentais e religiosos promovem a guerra em nome de Deus, principalmente quando a narrativa teológica é usada para se ter apoio popular.
Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, disse em maio de 2023, durante a Marcha das Bandeiras em Jerusalém: “Esta é a nossa casa. Deus nos deu esta terra, e não vamos pedir desculpas por isso.” Veja que o Ministro também afirmou que autoridades da Autoridade Palestina (AP) deveriam ser assassinadas caso houvesse progresso no reconhecimento da condição de Estado Palestino como resultado de uma votação pendente nas Nações Unidas.
Ben-Gvir chamou as principais autoridades da AP de “terroristas”, conforme noticiado por diversos veículos da mídia israelense.
A ideia é que os ataques sem precedentes do ministro são justificados pelos valores religiosos em defesa da terra que “Deus lhes deu”.
Por outro lado grupos como Hamas que já tiveram envolvimento político dentro da Palestina se tornou extremista exatamente por influência religiosa. Carta do Hamas de 1988 citava a Palestina como “terra islâmica consagrada para as gerações muçulmanas até o Dia do Juízo”.
Acredito que esses casos mostram a química perigosa entre política e religião e poderio militar.
4. Qual deveria ser o posicionamento ético e teológico da Igreja Protestante diante do conflito?
O posicionamento mais ético dentro da teologia cristã protestante acredito que seja o que certa vez um dos maiores teólogos das últimas décadas, chamado Karl Barth, elucidou sobre o assunto. Para Barth, a “terra” não traz um fim em si mesma. O que Deus prometeu a Israel foi, antes de tudo, Ele mesmo – a comunhão com Deus. E isso não serve somente para Israel mas para todas as pessoas. A salvação proposta nos evangelhos não é exclusivas para apenas um povo, mas está disponível para todos. Em outras palavras, o que devemos entender do ponto de vista do evangelho, é que Israel foi um meio para a vinda do Messias.
E com isso não devemos permitir que a Igreja confunda ou transforme a mensagem do Messias, a saber Jesus Cristo, numa ideologia ou programa político.
Portanto, o posicionamento mais ético seja manter a integridade da mensagem do evangelho, porque nem todos nossos problemas são políticos. A mensagem do Evangelho deve alcançar todos os povos, Deus chama a todos ao arrependimento sincero, levando uma transformação no coração do ser humano, pois Deus deseja salvar a todos e foi por isso que morreu numa cruz e ressuscitou, não podemos corromper essa de mensagem de salvação com ideologia política.
5. Que tipo de influência real as igrejas, líderes religiosos e comunidades de fé podem exercer hoje para reduzir as tensões e promover soluções concretas no conflito?
Primeiro os líderes religiosos deveriam ser os primeiros a entender a importância do diálogo em todos os aspectos. Todos os ramos políticos, ideológicos, filosóficos e sobretudo teológicos são plurais e isso no mínimo deveria despertar em nós e nos líderes religiosos que exercem papel fundamental nisso, despertar a consciência de diálogo e reflexão. Líderes religiosos tem por dever serem promotores da paz e da conciliação e nunca promotores de guerras.
Um líder religioso não deve promover guerras nem estimular a ganância das pessoas, mas despertarem o altruísmo e generosidade… muitas ajudas humanitárias podem ser levantas a partir de comunidades de fé cristã para socorrer vítimas de guerras.
Precisamos de mais educação teológica dentro das igrejas que sofrem com a baixa qualidade de formação de seus líderes. Igrejas crescem muito rápido e muitas vezes sem qualidade teológica. Eu acredito que a educação em todas as áreas é a grande solução para os problemas humanos.
Então líderes capacitados podem produzir teologia mais equilibrada em suas comunidades e dessa forma viabilizar um evangelho que leve mudança de vida e esperança para as pessoas.
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Charles Portela nos lembra que o uso religioso para legitimar violência, vindo de judeus, muçulmanos ou cristãos, é uma forma de terrorismo espiritual, tendo em vista corromper o sagrado e desumanizar o outro.
Do ponto de vista dos direitos humanos, não há hierarquia entre vítimas: um criança palestina morta em Gaza e uma criança israelense morta em Tel Aviv merecem a mesma comoção e a mesma defesa.
[*] Advogado criminalista, formado pela PUC-Rio, e professor de Processo Penal e Direitos Humanos. Professor colaborador e membro da Liga de Ciências Criminais (LACRIM) da PUC- Rio. Mestrando em Teoria do Estado e Direito Constitucional (PUC-Rio). Atua na pós-graduação em Ciências Criminais da Universidade Cândido Mendes e na pós- graduação em Prática Avançada em Tribunal do Júri. Autor e coordenador da coluna Entre o abuso e o abandono (UnB). Especialista em Direito Penal, Criminologia (PUC-RS) e Direitos Humanos (CEI), com atuação advocatícia e acadêmica nessas áreas.
[**] Mestre em Teologia pela Florida Christian University, SPC/ Speacialist E-4 pela base de Engenharia do US ARMY.

