Escritor por Isabella Guedes Costa e Andressa Brandão do Nascimento
Ao longo da história brasileira, mulheres negras foram sistematicamente afastadas dos espaços de poder, de produção intelectual e de reconhecimento público. Mesmo quando pensaram, escreveram, organizaram lutas e transformaram realidades, muitas vezes tiveram suas vozes silenciadas ou diminuídas por uma sociedade marcada pelo racismo e pelo sexismo.
Em um país em que fomos historicamente empurradas para as margens, torna-se necessário recordar a trajetória das “rebeldes” que romperam as engrenagens desse sistema antes de nós, desafiaram o silêncio, abriram caminhos e tornaram possível que hoje pudéssemos estar aqui, escrevendo, estudando, falando sobre Direito e reivindicando o direito de sermos reconhecidas e ouvidas.
As mulheres negras aqui mencionadas não foram as únicas, mas fizeram parte de um amplo movimento de subversão daquilo que a sociedade insistia em chamar de “normal”. Recusaram os lugares que lhes foram impostos e desafiaram uma estrutura social construída pela escravidão e sustentada pelo racismo. Suas trajetórias não servem para provar uma capacidade que sempre existiu, mas para revelar a força de quem, mesmo diante de tantas tentativas de apagamento, transformou existência em resistência e abriu possibilidades para outras mulheres negras.
Ver mulheres negras atravessando barreiras erguidas por séculos de exclusão nos impulsiona a continuar. Seus passos nos lembram que nossa presença nesses espaços não é acaso, mas fruto de luta. Ir mais longe, portanto, também é uma forma de honrar aquelas que vieram antes de nós, para que suas batalhas jamais tenham sido em vão.
Por isso, este texto busca revisitar a trajetória de duas mulheres fundamentais para o pensamento racial brasileiro: Dora Lúcia de Lima Bertúlio e Lélia Gonzalez. Mais do que homenageá-las, pretende-se reconhecer a profundidade de suas contribuições para a denúncia do racismo, para a crítica das estruturas sociais brasileiras e para a abertura de caminhos que ainda hoje sustentam a presença de mulheres negras nos espaços acadêmicos, jurídicos e políticos.
Inicialmente, destaca-se a trajetória de Dora Lúcia de Lima Bertúlio, nascida em Itajaí, Santa Catarina. Em entrevista concedida à UFPR TV (2025), Dora relembra que sua infância foi atravessada por uma realidade de forte segregação racial, pois, embora a população negra fosse significativa no litoral catarinense, os espaços sociais eram profundamente marcados por divisões entre brancos e negros. A escola, os clubes, as relações de amizade e os lugares de circulação revelavam a existência de fronteiras raciais que, mesmo quando não estavam escritas, eram socialmente impostas.
Nesse contexto, a família exerceu papel fundamental em sua formação. Dora relata que seus pais sempre valorizaram a educação como caminho de enfrentamento ao racismo e a ensinaram, desde cedo, que o problema não estava em ser negra, mas em uma sociedade que tratava a negritude como inferioridade.
A experiência escolar também aparece em sua narrativa como um espaço de contradição. Dora menciona que era a única estudante negra no colégio de freiras em que estudava e que, para ser respeitada, precisava se destacar constantemente. Essa exigência de excelência, que ela associa à experiência de pessoas negras em sociedades racistas, revela uma das marcas mais perversas do racismo: a necessidade de ser sempre “melhor” para ser minimamente reconhecida como igual (SANTOS, 2025).
Já na vida adulta, Dora Lúcia de Lima Bertúlio formou-se em Direito pela Universidade Federal do Paraná. Durante a graduação, realizada no período da ditadura militar, também enfrentou a ausência quase completa de estudantes negros na universidade. Em sua turma, havia apenas três pessoas negras, em um ambiente predominantemente branco e marcado por hierarquias de classe e raça.
Foi nesse percurso que a questão racial passou a se articular de forma mais direta com o Direito, pois Dora percebeu que havia uma legislação que prometia direitos, igualdade e cidadania, mas que não alcançava concretamente a população negra. Posteriormente, Dora concluiu o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, atuou como Procuradora Federal e exerceu funções de destaque na área jurídica, entre elas a chefia da Procuradoria Federal da UFPR. Ao longo de sua trajetória profissional e acadêmica, tornou-se uma das principais referências na defesa das ações afirmativas, desempenhando papel fundamental na consolidação das políticas de cotas raciais no ensino superior brasileiro.
Segundo Jesus (2025), uma de suas contribuições mais relevantes para o pensamento jurídico brasileiro está em Direito e relações raciais: uma introdução crítica ao racismo, livro baseado em sua dissertação de mestrado, apresentada em 1989. Nela, Dora reconstrói historicamente as relações raciais no Brasil, partindo da escravidão e do processo de formação nacional até a abolição e seus desdobramentos, para demonstrar que o fim jurídico da escravidão não significou a integração efetiva da população negra à sociedade brasileira. Ao contrário, a abolição representou uma ruptura formal com o regime escravista, mas não foi acompanhada de transformações sociais, políticas e econômicas (BERTULIO, 1989).
Nesse sentido, uma das principais críticas desenvolvidas por Dora (1989), recai sobre a igualdade formal proclamada pelo Direito, isto é, sobre a crença de que a simples afirmação de que todos são iguais perante a lei seria suficiente para superar as desigualdades produzidas pela escravidão. A autora evidencia que essa igualdade, embora prevista no plano jurídico, não alcançou concretamente a população negra, que permaneceu marginalizada do acesso à terra, ao trabalho digno, à educação, ao poder político e aos benefícios sociais que ajudou a construir.
Dora também critica o mito da democracia racial, compreendido como a ideia de que o Brasil teria formado uma sociedade harmônica, sem conflitos raciais profundos. Para a autora, esse discurso serviu para ocultar a permanência do racismo e impedir seu enfrentamento institucional, ao mesmo tempo em que permitiu ao Estado brasileiro apresentar-se como neutro diante de desigualdades que ele próprio ajudou a organizar e perpetuar, seja por meio do incentivo à imigração europeia e ao projeto de embranquecimento, seja pelo abandono da população negra à margem da sociedade, seja pela atuação repressiva do sistema penal e das demais instituições públicas (BERTULIO, 1989).
Dessa forma, a contribuição de Dora Lúcia de Lima Bertúlio ultrapassa sua trajetória individual de ascensão em espaços historicamente negados às mulheres negras, pois sua importância está, sobretudo, em ter deslocado a questão racial para o centro da análise jurídica.
Ao demonstrar que o racismo brasileiro não pode ser compreendido apenas como preconceito individual, mas como fenômeno produzido e reproduzido pelas instituições, Dora revelou que o Direito, longe de ser neutro, também participou da manutenção das desigualdades raciais, rompendo com leituras tradicionais do campo jurídico e abrindo caminhos para uma compreensão mais crítica das relações raciais no Brasil.
Essa crítica ao mito da democracia racial e à falsa neutralidade das instituições também atravessa a produção de Lélia Gonzalez, cuja obra permite compreender como racismo e sexismo se articulam na formação da sociedade brasileira. Assim como Dora tensionou o campo jurídico ao revelar sua participação na reprodução das desigualdades raciais, Lélia deslocou o debate racial e feminista ao colocar no centro da análise a experiência das mulheres negras, denunciando os mecanismos históricos, culturais e políticos que sustentam sua marginalização.
É a partir desse mesmo gesto de enfrentamento ao apagamento que se compreende a presença intelectual de Lélia Gonzalez na universidade brasileira. Constitui uma ruptura histórica, no interior de um espaço tradicionalmente estruturado pela branquitude, pelo elitismo e pelo silenciamento de vozes negras. Nascida em Belo Horizonte, em 1935, filha de um ferroviário negro e de uma trabalhadora doméstica indígena, Lélia construiu sua formação intelectual em meio às profundas desigualdades raciais e sociais que atravessavam o Brasil do século XX. Graduou-se em História e Filosofia, tornando-se posteriormente professora, antropóloga, filósofa e uma das principais intelectuais do pensamento negro brasileiro.
Entre suas produções intelectuais mais relevantes, destaca-se Lugar de Negro (1982), obra escrita em coautoria com Carlos Hasenbalg e considerada uma das primeiras publicações centrais de sua trajetória acadêmica. No livro, Gonzalez problematiza a falsa democracia racial brasileira e evidencia como o racismo estrutura as relações sociais, econômicas e institucionais no país. A autora também publicou textos que se tornaram fundamentais para o pensamento negro latino-americano, como Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira (1984), A Categoria Político-Cultural de Amefricanidade (1988) e diversos ensaios posteriormente reunidos na coletânea Primavera para as Rosas Negras (2018).
Ao longo de sua trajetória, Gonzalez articulou militância política e produção intelectual de maneira inseparável. Participou ativamente do Movimento Negro Unificado (MNU) e tornou-se referência fundamental para a consolidação do feminismo negro no Brasil, especialmente ao evidenciar que raça, gênero e classe operam conjuntamente na produção das desigualdades sociais.
Em uma sociedade acostumada a narrar a população negra como objeto de estudo, nunca como sujeito produtor de conhecimento, Lélia Gonzalez desloca o olhar. Sua escrita devolve humanidade àqueles historicamente reduzidos à marginalidade social e intelectual. Ao analisar as engrenagens do racismo e do sexismo na cultura brasileira, a autora demonstra que as opressões não atuam isoladamente, sobretudo se entrelaçam na experiência concreta das mulheres negras.
Em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, Gonzalez afirma que “o lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo” (1984, p. 224). A frase desvela uma percepção radical: não existe neutralidade na produção do conhecimento. Todo discurso carrega marcas de posição, história e poder.
Sua reflexão rompe, assim, com a tradição universalizante do pensamento ocidental, que durante séculos apresentou a experiência europeia como medida única da humanidade. Em resposta a esse apagamento histórico, Lélia Gonzalez constrói o conceito de “amefricanidade”, talvez uma das formulações mais potentes do pensamento latino-americano contemporâneo.
Ao reivindicar a centralidade das matrizes africanas e indígenas na formação cultural das Américas, a autora produz uma geografia alternativa do saber , primando por uma cartografia intelectual escrita desde o sul, desde os corpos colonizados, desde as memórias silenciadas. Para Gonzalez, “a categoria político-cultural de amefricanidade incorpora um processo histórico de intensa dinâmica cultural” (1988, p. 76), revelando que a identidade latino-americana não pode ser compreendida sem reconhecer a profundidade das heranças negras e indígenas que constituem o continente.
Há, em sua escrita, um movimento constante de recusa: recusa da subalternidade, recusa do silêncio, recusa da pretensa neutralidade acadêmica. Lélia Gonzalez inaugura novas possibilidades de existência intelectual para mulheres negras dentro e fora da universidade. Sua produção acadêmica compreende o conhecimento como experiência viva, inseparável da luta política e da transformação social.
Por isso, pensar a contribuição de Lélia Gonzalez para o meio acadêmico é reconhecer que sua obra abriu caminhos para a consolidação do feminismo negro brasileiro, para o fortalecimento das epistemologias decoloniais e para a crítica das instituições jurídicas e sociais atravessadas pelo racismo estrutural. Sua voz permanece atual porque continua ecoando onde historicamente tentaram impor o lugar de subalternidade. Em tempos de disputa sobre memória, identidade e democracia, ler Lélia Gonzalez é também um gesto de reconstrução histórica: a afirmação de que mulheres negras participaram da produção do pensamento brasileiro, sendo fundamentais para reinventá-lo.
A trajetória de Dora Lúcia de Lima Bertúlio e Lélia Gonzalez evidencia que a presença de mulheres negras nos espaços acadêmicos, jurídicos e políticos brasileiros é fruto de enfrentamentos contínuos contra estruturas historicamente organizadas pela exclusão racial e de gênero. Ambas, cada uma a seu modo, romperam com os limites impostos por uma sociedade que tentou restringir a população negra à condição de objeto, nunca de sujeito produtor de conhecimento, pensamento e transformação social.
Ao deslocarem a questão racial para o centro do debate intelectual, Dora e Lélia desafiaram o racismo explícito e as formas sutis de silenciamento produzidas pelas instituições, pela linguagem jurídica e pela própria produção acadêmica tradicional. Dora Bertúlio revelou como o Direito brasileiro participou historicamente da manutenção das desigualdades raciais, desmistificando a ideia de neutralidade jurídica e denunciando os limites da igualdade meramente formal. Lélia Gonzalez, por sua vez, demonstrou que raça, gênero e classe operam conjuntamente na produção das opressões, inaugurando novas formas de compreender a experiência histórica das mulheres negras na América Latina.
Ambas construíram formas de resistência epistemológica capazes de transformar os próprios critérios de legitimidade do saber acadêmico. Suas obras romperam com perspectivas universalizantes que durante séculos invisibilizaram experiências negras e passaram a reivindicar outras possibilidades de leitura da sociedade brasileira, fundadas na memória, na ancestralidade, na experiência vivida e na denúncia das desigualdades estruturais.
Nesse sentido, revisitar suas trajetórias é um exercício de reconhecer que muitos dos debates contemporâneos sobre ações afirmativas, feminismo negro, racismo estrutural e epistemologias decoloniais foram profundamente influenciados pelas reflexões dessas mulheres. Seus legados permanecem vivos porque continuam oferecendo instrumentos teóricos e políticos para compreender um país ainda marcado por profundas desigualdades raciais.
Por fim, lembrar Dora Bertúlio e Lélia Gonzalez é também afirmar que mulheres negras sempre participaram da construção do pensamento brasileiro, ainda que frequentemente tenham sido apagadas da narrativa oficial. Suas trajetórias demonstram que ocupar espaços historicamente negados significa sobretudo abertura de caminhos coletivos. Assim, dar continuidade às suas lutas, ampliar suas vozes e preservar suas memórias constitui um compromisso com a construção de uma sociedade efetivamente democrática, plural e antirracista.
Referências:
BERTULIO, Dora Lucia de Lima. Direito e relações raciais: uma introdução crítica ao racismo. 1989. Dissertação (Mestrado em Ciências Humanas – Especialidade Direito) – Curso de Pós-Graduação em Direito, Centro de Ciências Jurídicas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1989.
JESUS, Edmo de Souza Cidade de. Dora Lucia de Lima Bertulio: Um Legado Inapagável para o Direito e a Luta Antirracista no Brasil. Instituto dos Advogados de Santa Catarina, 14 fev. 2025. Disponível em: https://iasc.org.br/2025/02/dora-lucia-de-lima-bertulio-um-legado-inapagavel-para-o-direito-e-a-luta-antirracista-no-brasil. Acesso em: 8 maio 2026.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luiz Antônio Machado et al. Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília: ANPOCS, 1984.
GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 92/93, p. 69–82, 1988.
SANTOS, Gabriel. Mulheres da UFPR: Dora Lucia Bertulio e o protagonismo na luta antirracista. UFPR, Curitiba, 7 mar. 2018. Disponível em: https://ufpr.br/mulheres-da-ufpr-dora-lucia-bertulio-e-o-protagonismo-na-luta-anti-racista/. Acesso em: 6 maio 2026. RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (org.). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. UFPR TV. Entrevista Especial | O legado de Dora Lúcia Bertúlio: cotas, resistência e consciência negra. YouTube, 20 nov. https://youtu.be/g2oRp8G1BwM. Acesso em: 6 maio 2026. 2025. Disponível em:

