MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE

ENTREVISTA COM LAURA ANDERAUS

por Entre o Abuso e o Abandono

Escrito por Gabriel Cardoso [1]

A Medicina de Família e Comunidade exige uma compreensão profunda do território de atuação e da realidade social como pressuposto para aplicação da técnica médica de qualidade.

Nossa coluna teve a satisfação de entrevistar  a médica Laura Anderaus [2], que nos contou acerca da sua visão sobre saúde pública. Para ela, a verdadeira promoção da saúde reside na intersecção entre o acesso a direitos fundamentais, como o saneamento básico, a mobilidade urbana e a luta intransigente contra a invisibilidade e desigualdade social.

1. Como a residência em Medicina de Família e Comunidade na Rocinha mudou sua visão sobre medicina, saúde e direitos humanos?

Por ter escolhido a favela como cenário para a minha especialização, a residência me ensina todos os dias sobre o que é realmente promover saúde e sobre os processos de adoecimento, e como isso está ligado à garantia de direitos. A principal mudança, acredito eu, talvez seja sobre o meu papel ali como médica e até onde vai o meu poder, uma vez que agora passei a entender, na prática, que garantir saúde depende de determinantes sociais: saneamento básico, acesso a alimentação segura e de qualidade, educação, lazer, cultura, mobilidade urbana também são, mais do que a unidade básica de saúde, promotores de saúde. De fato, é impossível garantir saúde se os outros direitos não estão garantidos.

Não dá para, sozinha, agir sobre essa realidade. E, muitas vezes, os processos de adoecimento são uma consequência dessas faltas. Se eu atendo uma senhora com artrose no joelho, que não consegue sair de casa porque as escadarias infinitas da favela não permitem, vive numa pequena construção, sem janelas, e é assistida por uma unidade sem assistência social, fisioterapia e psicologia, e sobrevive com um salário mínimo de aposentadoria para seu próprio sustento e dos filhos e netos, eu não posso considerar que eu, como médica, vou ser a última esperança dessa mulher. Nós duas precisamos de muito mais para ajudá-la. Aí entram os outros direitos.

2. Nos conte um pouco acerca do seu intercâmbio sobre saúde sexual e direitos reprodutivos na Eslováquia.

O intercâmbio foi uma oportunidade que surgiu em 2024, no meu último ano da graduação. Foi uma experiência de duração de um mês na Eslováquia, um país localizado na Europa Central e que emergiu pouco depois do fim da guerra fria. A ideia era estar em contato com estudantes de medicina de países diversos e trocarmos sobre o tema principal da experiência: saúde sexual e direitos reprodutivos. Tivemos diversas atividades práticas e teóricas acerca do tema, com convidados profissionais da saúde eslovacos.

Foi uma viagem altamente interessante porque, no geral, a ideia das pessoas é de que os sistemas de saúde, sejam públicos ou privados, são melhores na Europa, mas honestamente, o Brasil, em termos de sistematização da saúde é um grande exemplo. A universalidade do Sistema Único de Saúde (SUS) garante acesso a muitas tecnologias que garantem direitos, por exemplo, a contracepção gratuita, acompanhamento pré-natal e assistência ao parto também gratuitos, combate à pobreza menstrual com leis nacionais, dentre outras medidas ligadas a essa temática. Claro, como todo lugar, principalmente com as dimensões territoriais do nosso país, há inúmeras questões problemáticas ligadas a esses mesmos sujeitos, mas em se tratando de saúde pública, e fazendo um paralelo com a realidade que eu vivencio e ajudo a promover na favela da Rocinha, eu classificaria nossas conquistas com o SUS como boas.

Além do crescimento profissional e experiência cultural, da criação de relações de amizade com pessoas de vários países, o intercâmbio foi muito importante para voltar dando ainda mais valor à minha formação e ao trabalho que nós somos capazes de prover à população que atendemos aqui.

 

3. Você apresentou o nosso trabalho sobre o direito à saúde no sistema prisional no Congresso Internacional de Medicina de Família WONCA 2025. Como foi recebido pelo público?

Em primeiro lugar, o fato de esse trabalho ter sido aceito no principal congresso mundial da minha especialidade já escancara como esse tema conversa com princípios da medicina de família e como também é de interesse internacional em discussões científicas no que tange à promoção de saúde. Falar sobre saúde no sistema prisional brasileiro é falar sumariamente sobre a violação dos direitos humanos.

Nesse sentido, o trabalho foi muito bem recebido, mesmo porque, nele, nós abordamos justamente as políticas públicas voltadas para essa tentativa de garantia de direitos, utilizando da atenção primária em saúde como ferramenta de promoção em um sistema prisional excepcionalmente peculiar. A experiência do WONCA foi mais uma etapa do meu primeiro ano de residência de bastante crescimento, além de ter sido outra experiência internacional que me colocou em contato com práticas do mundo todo e me fez perceber mais uma vez que muitos dos desafios que enfrentamos no Brasil são, na verdade, universais.

4. Tem alguma história que te marcou na residência que gostaria de compartilhar?

Incontáveis. A mais recente, que eu literalmente tenho levado para casa, é uma paciente mulher muito querida que iniciou uma investigação diagnóstica conosco após algumas internações por crises convulsivas, e descobrimos muitas lesões cerebrais em um exame de imagem. Isso já deve ter quase 3 meses. Prontamente, fizemos inúmeros encaminhamentos para exames complementares e especialistas focais, a fim de prosseguir a investigação em serviços de saúde com um nível de complexidade maior, por se tratar de um caso potencialmente grave, mas ela permanece estacionada, seja porque as consultas eram sempre adiadas, seja porque os encaminhamentos ainda não saíram. Conseguimos uma consulta com muita prioridade com a neurocirurgia e a conduta do serviço foi agendar uma ressonância magnética com contraste para dezembro deste ano, sendo que ainda estamos em abril e ela já apresentou um resultado de ressonância realizada este ano, a mesma que me levou a encaminhá-la.

Esse é um caso que vem me inquietando porque eu me sinto vendida, essa paciente volta em consulta para mim e, em teoria, todas as possibilidades que eu tinha para ajudá-la já estão feitas, tudo o que me resta é aguardar os trâmites andarem. A falta de comunicação entre os níveis de atenção do cuidado e a falta de acesso a esses níveis com a rapidez que deveria ocorrer são angustiantes.

Eu sou a médica dela, na atenção primária à saude, mas infelizmente não tenho recursos para resolver tudo sempre. Acho que no cenário do Rio de Janeiro, o médico de família já é encarregado de muitas incumbências, mas essa carga emocional da impotência diante do que não nos cabe mais, mesmo lutando pelo paciente diante da gestão, é uma das partes mais pesadas.

Essa é uma das incontáveis que falei no início, eu compartilho algumas outras no livro em que estou trabalhando, para publicação em breve, sobre minha experiência na Rocinha.

***

Laura Anderaus carrega consigo uma urgência ética de um sistema que ainda tropeça na própria burocracia e nos formalismos do dia a dia.

Enquanto houver direitos básicos suprimidos cotidianamente, o trabalho do médico de família e dos agentes de saúde será, acima de tudo, um ato de resistência e de redução de danos.

Laura seguirá com a sua atuação médica competente, técnica e sensível, e, agora, com um livro em construção  sobre suas experiências profissionais.

Desde já, está publicamente convidada para retornar a nossa coluna e anunciar o lançamento da obra.

[1] Advogado criminalista, formado pela PUC-Rio, e professor de Processo Penal e Direitos Humanos. Professor colaborador e membro da Liga de Ciências Criminais (LACRIM) da PUC- Rio. Mestrando em Teoria do Estado e Direito Constitucional (PUC-Rio). Atua na pós-graduação em Ciências Criminais da Universidade Cândido Mendes e na pós- graduação em Prática Avançada em Tribunal do Júri. Autor e coordenador da coluna Entre o abuso e o abandono (UnB). Especialista em Direito Penal, Criminologia (PUC-RS) e Direitos Humanos (CEI), com atuação advocatícia e acadêmica nessas áreas.

[2] Médica pelo Centro Universitário de Volta Redonda – UniFOA. Residente em Medicina de Família e Comunidades na Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro – Clínica da Família Maria do Socorro Silva e Souza. Foi discente visitante no programa internacional de intercâmbio de Saúde Sexual e Direitos Reprodutivos, incluindo HIV e AIDS (SCORA X-Change), na Eslováquia.

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