Escrito por Daniel Henrique Silva [*]
Nesta série, apresentamos debates no modelo do parlamento britânico, dos quais participamos na Hermenêutica — Sociedade de Debates da UnB. Nesse formato, há duas duplas de Governo, que devem apresentar argumentos para apoiar a moção (abolir todas as pesquisas eleitorais), e duas duplas de Oposição, que argumentam em sentido contrário. Aqui, apresentamos as teses e os argumentos de cada lado.
Antes de tudo, para que todos os argumentos se desenvolvam adequadamente, precisamos conceituar a moção e seus termos. Assim, podemos dizer que essa é uma moção de policy (também chamada de moção de política pública), na qual Governos necessariamente devem criar um modelo de implementação de determinada política pública, lidando com seus eventuais benefícios e malefícios.
Nesse contexto, as Oposições geralmente defendem o status quo, ou seja, a manutenção do cenário atual, alegando que a proposta causará problemas mais graves ao mundo do que os já existentes. Vale lembrar ainda que as Oposições não podem alegar a inviabilidade técnica da proposta, devendo aceitar que o cenário de governos é minimamente factível.
Caracterizada a moção, podemos partir para a conceituação de seus termos. Para fins deste debate, pesquisas eleitorais podem ser tanto de intenção de voto quanto de popularidade, medindo aprovação e desaprovação dos candidatos. Ao longo da exposição, além de apresentar os argumentos de cada casa, analisaremos comparativamente seu impacto e plausibilidade, identificando qual bancada construiu o caso mais robusto. Podemos, agora, analisar os argumentos de cada lado.
O Primeiro Governo defende a seguinte ideia: pesquisas são enviesadas em razão de seu espaço amostral limitado, e criam uma narrativa social de que apenas os candidatos mais bem colocados podem ganhar o pleito. Partindo de tal premissa, surgem como consequências o desengajamento político e o voto por efeito manada.
O desengajamento político é derivado da falta de esperança na vitória do candidato escolhido, dada a sua má colocação nas pesquisas. O Governo alega que tal lógica fere o princípio democrático, uma vez que, mais importante que votar em quem ganha, é votar em quem efetivamente defende interesses correspondentes aos do eleitor. Ampliaria-se, desse modo, a visibilidade de tais pautas e também as chances desses candidatos serem eleitos futuramente, configurando, então, um bom funcionamento da democracia.
Já o efeito manada consiste na votação em massa em quem lidera as pesquisas devido à crença de que o candidato é o único capaz de evitar a vitória de alguém totalmente indesejado. Este fenômeno, segundo a casa, pode ser entendido como “o outro lado da moeda” do desengajamento político, pois compartilham o mesmo gatilho (divulgação das pesquisas).
Porém, no efeito manada, o eleitor, ao invés de manter a passividade, vota em um candidato avesso aos seus princípios simplesmente pela sua colocação na pesquisa, sem que ele precise efetivamente convencê-lo a tomar tal decisão. O fenômeno, segundo o Primeiro Governo, fere igualmente a lógica democrática, pois os postulantes ao cargo público não precisam expor suas opiniões, bastando-lhes o silêncio para elevar seu desempenho nas urnas.
Assim, a bancada admite que as duas situações não têm como causa única as pesquisas eleitorais, porém, consideram a divulgação de seus resultados como o principal gatilho para ambas. Desse modo, o fim da divulgação dos dados seria suficiente para cessar a ocorrência de tais males, contribuindo para o funcionamento salutar da democracia, na medida em que valoriza escolhas mais fidedignas em detrimento das feitas em razão da popularidade.
Por outro lado, a Primeira Oposição tem como uma possível linha argumentativa a defesa do benefício das pesquisas aos candidatos de menor expressão, sobretudo entre o eleitorado indeciso. Para entender o argumento, é preciso, antes, notar a diferença construída entre eleitores decididos e indecisos.
Os decididos são aqueles que, independentemente da pesquisa, já sabem em quem vão votar, pois acompanham com afinco as movimentações do cenário político, sendo naturalmente engajados com determinados partidos e ideologias. Os indecisos, ao contrário, não possuem consciência clara de seu posicionamento no espectro político, e, portanto, são influenciáveis pelos dados. Estes últimos são o principal grupo de interesse desta moção para o argumento tratado.
Nesse contexto, a Oposição defende a importância da divulgação dos resultados das consultas de popularidade como ferramenta de instigação da curiosidade desse eleitor indeciso. De acordo com o cenário desenhado, conforme o concorrente de menor expressão construa uma campanha eficiente, apresentando propostas condizentes com seu público-alvo, seu desempenho subirá, chamando a atenção justamente do votante indeciso, que pode se identificar com seu pensamento e votar nele.
Aqui, diferentemente do que sustentam os governos, o voto não se dá simplesmente pela popularidade, mas sim pela união entre a identificação com as propostas e a percepção do potencial de crescimento do político. Além disso, ambos os lados concordam no fato de a pesquisa ser um impulsionador de votos, porém, o Primeiro Governo vê isso como um propulsor de candidatos desalinhados ao eleitorado, enquanto a Primeira Oposição vislumbra uma vitrine para o cidadão costumeiramente desengajado encontrar alguém que efetivamente o represente.
Finalmente, é rebatido o argumento de governos de que pesquisas não são confiáveis por guardarem vieses intrínsecos decorrentes da metodologia amostral. A primeira bancada oposta ressalta a preocupação dos institutos com a construção de uma amostra representativa de diversos níveis de escolaridade, renda e idade. Desse modo, é emulado, proporcionalmente, o perfil do eleitorado correspondente (seja de um município, estado ou país).
A chave para entender a controvérsia sobre qual o verdadeiro papel das pesquisas reside na separação entre votantes convictos e não convictos. Enquanto os defensores da moção tentam construir um impacto abrangente sobre todo o eleitorado (o que acaba não se provando), as casas contrárias centram o impacto nos indecisos e demonstram como isso pode ajudá-los a engajarem-se politicamente.
Desse modo, a Oposição sustenta a multifatorialidade do resultado de um pleito, apontando a pesquisa como um dos fatores de impacto, que, entretanto, têm seu alcance limitado a circunstâncias específicas. Esse cenário possui um ganho de plausibilidade em relação ao de governos, pois identifica outras razões mais estruturais para o desengajamento político.
Na segunda parte do debate, o Segundo Governo e a Segunda Oposição trazem novos argumentos, incrementando o debate.
A nova linha argumentativa de governo muda o foco de análise, destacando não mais a influência das pesquisas sobre o eleitorado, mas sim sobre os políticos e seus partidos. Dessa maneira, as consultas populares, que surgiram como fruto da curiosidade dos veículos de mídia, passaram a ser utilizadas pelos partidos como um critério de escolha para os candidatos: concorre quem performa melhor nas pesquisas.
Tal lógica, segundo a bancada governista, fere igualmente o princípio democrático, mas por mecanismos diferentes. Enquanto no cenário anterior o agente influenciado era o eleitor, agora, vemos os partidos políticos ocupando esse lugar, pois são as ações destes últimos que deturpam a democracia.
Ao focar apenas nos resultados numéricos, os partidos incentivam cada vez mais a candidatura de políticos populistas, que não possuem propostas de melhoria efetiva da sociedade. Assim, a principal consequência trazida pela bancada é a corrupção da democracia, baseada na ausência de candidatos que realmente agreguem ao debate político, uma vez que o objetivo principal é fazer o discurso mais agradável possível às massas, garantindo sucesso no pleito.
Em suma, o Segundo Governo traz a mesma consequência de seu predecessor (a transgressão do princípio democrático), porém, com uma mecanização diferente, trazendo o comportamento dos partidos para o centro da discussão. Dessa forma, esbarram, igualmente, no fato de as pesquisas eleitorais não serem a raiz do problema indicado, mas sim, como dito pela primeira oposição, um diagnóstico do fenômeno.
Por essa razão, acabar com as pesquisas eleitorais com o fito de garantir o bom funcionamento da democracia seria como, metaforicamente, parar de fazer exames com o intuito de extinguir a doença. A chave para a resolução não está no diagnóstico, e sim no enfrentamento dos problemas estruturais, que conferem à estratégia populista o melhor resultado nas urnas.
Para finalizar o debate, a Segunda Oposição monta seu caso engajando diretamente com o eleitor médio, caracterizando-o de forma semelhante ao que fez sua casa predecessora. Para eles, esse eleitor médio seria aquele que não acompanha intensamente as movimentações políticas e, talvez, sequer vá às urnas, por não acreditar no poder de transformação social deste ato. Vale destacar, contudo, uma diferença central em relação à Primeira Oposição: enquanto aquela bancada apostava na curiosidade como motor de engajamento desse eleitor, a Segunda Oposição mobiliza o medo como gatilho — um sentimento capaz de gerar reações comparativamente mais intensas.
Entretanto, a bancada defende que, quando esse eleitor detecta a possibilidade de ameaça aos seus direitos, surge nele um senso de urgência, retirando-o da inércia. Dessa maneira, a ascensão dos políticos de extrema-direita, por exemplo, é um dos gatilhos que despertam tal fenômeno, já que seus discursos são frequentemente pautados na opressão de minorias, no enfraquecimento das normas trabalhistas e na adoção de modelos neoliberais de gestão econômica.
Além disso, a casa também utiliza como suporte a ideia de que o ser humano, de um modo geral, não quer apenas votar em alguém identificado com seus ideais, mas quer também que o escolhido tenha chances reais de vitória, pois só assim sentirá que seu voto teve utilidade. Essa tese não é nova no debate, no entanto, foi tratada, sobretudo pelo Primeiro Governo, como algo ruim, sob a pecha de contrária ao princípio democrático.
Todavia, a Segunda Oposição defende a importância desse comportamento, pois seria a melhor forma de evitar “um mal maior”. Nesse cenário, o senso de urgência criado pelas pesquisas leva o cidadão a uma escolha racional: em nome da proteção de direitos coletivos e individuais, aceita-se eleger um representante com quem não há identificação plena, desde que isso impeça a ascensão de uma figura tida como muito ameaçadora.
Portanto, as pesquisas funcionariam como meio de demonstração não só da existência, mas também do crescimento de tais políticos, uma vez que, sem elas, o eleitor médio não teria como constatar a evolução deles.
A bancada traz como exemplo o caso da França, onde a candidata de direita Marine Le Pen aparecia nas pesquisas, logo após o o primeiro turno, com até 48% das intenções de voto, e, às vésperas do segundo turno, com cerca de 45% (G1). Contudo, acabou com cerca de 41,5% dos votos (Poder360), demonstrando um engajamento social contra sua eleição, o que aumentou a margem da vitória de Macron.
Por conseguinte, a Segunda Oposição supera o caso do Primeiro Governo, demonstrando como as pesquisas incrementam o engajamento político. A mobilização do eleitorado por meio do senso de urgência é mais plausível do que a sustentada por ambos os governos, baseada predominantemente na identificação representado-representante. Há ainda um impacto mais tangível, já que a ameaça aos direitos fundamentais é comparativamente mais concreta do que a quebra do princípio democrático.
Apesar da mecanização distinta, ambas as bancadas governistas pregam o fim das consultas de popularidade com o objetivo de garantir que os eleitores escolham a identificação em detrimento do desempenho. Não obstante, a Segunda Oposição demonstra como a escolha pelo desempenho pode ser benéfica em determinados cenários, ressaltando ainda a recorrência cada vez maior de tais ocasiões no contexto atual, reforçando seu impacto.
Ademais, a Primeira Oposição é também superada pela concepção e demonstração das pesquisas como ferramentas de mobilização ativa do eleitorado. Enquanto a casa oposicionista anterior depende necessariamente da curiosidade do eleitor, seus sucessores se sustentam no medo, sentimento capaz de gerar reações mais intensas. Ganham, assim, tanto na análise de impacto, quanto na de plausibilidade.
Em última análise, a Segunda Oposição garante o primeiro lugar nesse debate por trazer uma métrica de urgência, com alto impacto e plausibilidade. É impactante justamente por construir um cenário no qual as pesquisas são um instrumento para, sob a perspectiva do eleitor, estabelecer a garantia de direitos mediante o voto, impedindo a eleição de figuras tidas por ele como ameaçadoras.
Já a plausibilidade é demonstrada pela correlação com o contexto político mundial, no qual políticos de extrema-direita surgem de maneira rápida e avassaladora, seja em âmbito municipal, estadual ou federal. Figuras como Pablo Marçal, Marine Le Pen e o movimento alemão AfD constituem exemplos de casos nos quais houve grande crescimento nos índices de intenção de voto, mas que, com a mobilização popular, a vitória nas urnas não veio.
O caso, como visto, estabelece um diálogo mais robusto com os demais, superando-os em suas respectivas métricas e conquistando, por tais razões, a primeira colocação. Logo na sequência, vem a Primeira Oposição, que, a despeito de ter apresentado um motivo mais fraco para a importância das consultas (a instigação do interesse do eleitor indeciso), demonstra com mais habilidade seu ponto em comparação com os governos.
As duas casas iniciais disputam o mesmo ponto: a instigação do eleitor ao voto em candidatos identificados com seus valores. Porém, enquanto o Governo trata a pesquisa como empecilho, a Oposição a vê como mecanismo auxiliador. Então, ao centrar a análise na perspectiva do eleitor médio, constata-se a vantagem do argumento oposicionista, na medida em que os índices tornam-se um estímulo para a consulta das propostas de um candidato por parte desse cidadão não engajado, o que não ocorre na hipótese governista.
Na última posição, figura o Segundo Governo, pois sua ideia de dimensionar o debate com base na atuação dos partidos não engaja satisfatoriamente com as demais casas, que deram prioridade à perspectiva do eleitor médio. A extensão governista cria para si o ônus de construir uma explicação do porquê sua perspectiva é a mais importante, o que não consegue fazer de maneira efetiva, deixando-os para trás em relação aos outros.
Achou o resultado justo? Algum aspecto das argumentações ficou de fora? E você, que lado defenderia nesse debate?
[*] Graduando em Direito pela Universidade de Brasília (FD/UnB), atualmente no 4° semestre. É Coordenador de Produção da Diretoria de Módulos da Hermenêutica, projeto vinculado à Faculdade de Direito da UnB. Desenvolve pesquisas nas áreas de argumentação e retórica, lógica argumentativa, direito digital, inteligência artificial e regulação digital.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
I TND | Final Novice. Publicado pelo canal CONFEDERAÇÃO DE DEBATES DO BRASIL – CONDEB. [S. l.]: YouTube, 5 fev. 2025. 1 Vídeo (1h 7min 56s). Disponível em: https://youtu.be/oa6z1D7rmAY. Acesso em: 6 abr. 2025.
G1. Vantagem de Macron sobre Le Pen nas pesquisas se amplia antes do 2º turno de domingo na França. G1, [S. l.], 19 abr. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/04/19/vantagem-de-macron-sobre-le-pen-nas-pesquisas-se-amplia-antes-do-2o-turno-de-domingo-na-franca.ghtml. Acesso em: 6 abr. 2026.
PODER360. Resultado final confirma Macron reeleito na França. Poder360, [S.l], 25 abr. 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/resultado-final-confirma-macron-reeleito-na-franca/. Acesso em: 6 abr. 2026.

