Escrito por Letícia Pádua Pereira [*]
Existe uma narrativa de um russo, o Nikolai Gógol, chamada “O Nariz”, em que um funcionário acorda destituído de seu nariz, uma cara límpida composta somente de olhos, boca e orelhas. No documentário, Sandrine não é privada somente do nariz, na composição de seu rosto, também dos olhos e de todos os outros atributos que venham a personalizar: para os ouvintes, ela só é boca e ouvidos. Boca e ouvidos, continuadamente. Essa destituição de sua identidade, amargurada pelo ressentimento dos ouvintes que pretendem a patologizar, a classificá-la como deficiente, despoja seus primeiros nove anos de vida de uma compreensão do mundo, como se a Terra sofresse uma cisão: o mundo dos ouvintes e dos surdos.
A normatividade hegemônica extirpa a amplitude de seu ensino, tendo como escopo máximo o desenvolvimento da fala, a experiência pessoal de Sandrine dimensiona o documentário, demonstrando a violência subjacente à privação de uma subjetivação que engloba, em sua dignidade, o usufruto da linguística, de signos e de símbolos que a integrariam ao mundo. Quando crianças surdas nascem, a metodologia adotada para não chocar os pais ouvintes, embebidos em uma normatização do ser restritiva –, além de excludente –, a concessão de uma deficiência auditiva reversível, adornando a notícia de promessas de cura, como se a surdez fosse uma doença, e não uma díspar ramificação da vida.
O giro paradigmático na vida de Sandrine é o momento que faz seus primeiros amigos surdos, aqui ela é entendida, vista e integrada, não se delineando nenhum método de implementação forçada de sua identidade em uma caixa dominante. A restrição da potencialidade dos corpos surdos incide em sua existência ser maculada por uma fórmula estática – ser deficiente –, em que o diagnóstico reverbera em dois eixos centrais: a visibilidade e a opacidade. Nesta primeira, a vida surda se transporta para dentro de um perímetro de visibilidade persecutória, em que sua comunicação é julgada e, até mesmo, criminalizada. Na opacidade, a discriminação ativa se coaduna à invisibilidade do suprimento das demandas, aqui os surdos são vistos como apêndices, como seres abduzidos.
O sonho de Sandrine é o teatro, visto como impossível de concretização. “Quem decretou isso? Os ouvintes?”, ela questiona, permeando sua performance contra-hegemônica de significações, em desacordo à genealogia do espetáculo normativo, este que formaliza uma retórica seletiva capaz de extirpar subjetividades coletivas. Faz-se imprescindível notar, por fim, que a educação é um campo de guerra oneroso, a ser conquistado fora da esterilização dominante, a fim de metamorfosear o rosto composto por boca e orelhas, em uma constelação.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SOU Surda e Não Sabia. Direção: Igor Ochronowicz. Produção: POINT DU JOUR. Intérprete: Sandrine Herman. Roteiro: Sandrine Herman; Igor Ochronowicz. França: France 5 – France Télévisions, 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Vw364_Oi4xc&t=3600s. Acesso em: 28 out. 2023.
[*] Editora-Chefe da Revista dos Estudantes de Direito da UnB (RED|UnB) durante 2025, comandando integralmente as quatro editorias. Graduanda em Direito na UnB. Estagiária em gabinete de Ministro no Supremo Tribunal Federal (STF). O texto foi escrito em 2024.

